Hepatologista e Gastroenterologista em Belo Horizonte

Como o próprio nome diz, é o acúmulo de gordura dentro das células do fígado. Ele acontece geralmente por excesso de peso, resistência à insulina, diabetes, colesterol alterado ou pressão alta.
Ela é chamada de “metabólica” justamente porque está diretamente ligada ao funcionamento do metabolismo do corpo como um todo. Na prática, o diagnóstico se dá pelo achado sugestivo de gordura no fígado em algum exame de imagem (ultrassom, tomografia ou ressonância) associada a pelo menos um fator de risco metabólico, como obesidade, diabetes, colesterol alto, triglicérides elevados ou hipertensão.
Um ponto importante: na fase inicial, essa condição costuma ser completamente silenciosa. A maioria das pessoas não sente nada e descobre por acaso, ao fazer um exame de rotina que mostra enzimas do fígado levemente alteradas ou um achado de esteatose (gordura) na ultrassonografia.
Na maior parte das pessoas a esteatose permanece estável por muito tempo e não causa problemas graves. O desafio é que, em uma parcela dos casos, a doença avança em etapas:
Primeiro, a gordura acumulada pode gerar um processo inflamatório dentro do fígado, quadro conhecido como esteato-hepatite metabólica (a usamos a sigla do inglês, MASH). Nessa fase, as células do fígado já estão inflamadas, não apenas armazenando gordura.
Se essa inflamação persistir por anos sem controle, ela pode levar à fibrose, que é a formação de cicatrizes no tecido hepático. A fibrose é avaliada em graus (de leve a avançada) e é o principal fator que os médicos observam para estimar o risco de complicações futuras.
O médico deve estimar seu risco com cálculos práticos do FIB-4 ou solicitação de exames não invasivos tais como a elastografia ou fibroscan para estimativa da fibrose hepática.
Nos casos mais avançados e não tratados, a fibrose extensa pode evoluir para cirrose, quando o fígado perde boa parte de sua capacidade de funcionar normalmente, e aumenta o risco de câncer de fígado.
Vale destacar um ponto muito importante: a doença hepática gordurosa metabólica está fortemente associada a maior risco cardiovascular, já que compartilha as mesmas raízes (obesidade, diabetes, colesterol e pressão alterados). Por isso, cuidar do fígado, nesse contexto, é também cuidar do coração e vice-versa.
O tratamento começa — e, para a grande maioria das pessoas, se resume — em mudanças no estilo de vida. Os pilares mais bem estabelecidos são:
Perda de peso gradual e sustentada: reduzir entre 5% e 10% do peso corporal já traz uma melhora significativa da gordura no fígado e, em muitos casos, da própria inflamação e da fibrose. É importante reduzir o consumo de açúcar, alimentos e bebidas ultraprocessadas e aumento da ingestão de fibras, vegetais e proteínas de qualidade.
Atividade física regular: pelo menos 150 minutos por semana de exercício aeróbico moderado (caminhada rápida, bicicleta, natação), combinados com exercícios de força, ajudam a reduzir a gordura hepática mesmo antes de haver perda de peso relevante na balança.
Controle das outras condições metabólicas: manter o diabetes, o colesterol e a pressão arterial bem controlados é parte essencial do tratamento, já que essas condições caminham juntas.
Redução ou eliminação do consumo de álcool, especialmente quando já existe fibrose, e atenção ao uso de medicamentos ou suplementos que possam sobrecarregar o fígado sem orientação médica.
Nos últimos anos, também passamos a contar com opções medicamentosas específicas para quem já tem inflamação e fibrose mais significativas. Alguns medicamentos originalmente usados para diabetes e perda de peso (como os análogos de GLP-1- Semaglutida) mostraram benefício direto sobre a saúde do fígado, e já existe um medicamento aprovado especificamente para tratar a esteato-hepatite com fibrose moderada a avançada, o Resmetiron (aprovado nos EUA mas ainda não disponível no Brasil) A cirurgia bariátrica também pode ser considerada em casos selecionados de obesidade associada à doença. Nenhuma dessas opções, porém, substitui a base do tratamento, que continua sendo a mudança de hábitos — os medicamentos são um complemento, indicado caso a caso pelo médico responsável.
A doença hepática gordurosa metabólica é comum, geralmente silenciosa no início e, na maioria dos casos, reversível quando identificada e tratada a tempo. Ela funciona como um sinal de alerta do corpo sobre o metabolismo como um todo — e cuidar dela é, ao mesmo tempo, cuidar do coração, do peso e da qualidade de vida a longo prazo. Se você tem fatores de risco como obesidade, diabetes, colesterol ou pressão alterados, vale conversar com seu médico sobre a necessidade de investigar a saúde do seu fígado.